21 novembro, 2017

Viagem à Madeira

Como é hábito há 7 anos, desde que me casei, chega ao fim de Outubro e vou para aquela escapadinha que tem o timing perfeito entre as férias de Verão e do Natal, ideal para recarregar baterias. Desta feita, rumei até à Madeira, que nunca tinha visitado, com o objectivo (traçado pela minha mulher) de fazer bastantes levadas, um must para quem visita esta ilha. 


Mal saí do avião, rumámos em direcção à Ponta de São Lourenço para esta caminhada de 8km em redor da bela escarpa recortada tão característica deste local. Fui fazendo uns rabiscos, quase em movimento que nem consigo chamar bem de desenhos, mas sim apontamentos. Ao rever estes apontamentos lembro bem que o ritmo da caminhada ainda era tão ou mais frenético que o traço...

Dos poucos e rápidos desenhos sentados que me permiti fazer, saiu este, já estoirado e quando ainda faltavam 200 metros para chegar ao final, final esse meio enganador que na verdade é o meio porque depois havia todo o caminho de volta para percorrer, debaixo de um calor abrasador ( e já quase sem água...).



...mas sobrevivemos. Depois de regressarmos ao carro (com um garrafão de água comprado previamente) rumámos até à Prainha onde única coisa que fiz foi tomar banho de água morna (no final de Outubro!) e descansar... Depois disto fizemos uma passagem rápida pelas casas de Santana e pouco mais num primeiro dia bem preenchido.

Estávamos alojados num pequeno apartamento bem no centro histórico do Funchal na Rua da Cadeia Velha que no fundo era uma rua para onde davam as traseiras dos edifícios das ruas mais movimentadas que a ladeavam. Ali meio protegido do reboliço urbano matinal, fiz este desenho da janela do nosso quarto/sala/cozinha com vista para o largo de pelourinho, ponto obrigatório de passagem para pegar no carro estacionado uns metros mais à frente.

Desta vez a levada escolhida foi a do Rabaçal/25 fontes e para lá chegar nada melhor que um Clio num caminho municipal mais íngreme que sei lá, com dois sentidos mas onde só passava um carro de cada vez. Depois desta descarga de stress que tenho sempre que me meto num carro por estes caminhos manhosos, nada melhor que andar a pé que é sem dúvida das coisas que mais adoro fazer.  Lá fomos para uma das levadas mais esperadas que nos recebeu com vacas a beber água directamente das nascentes e com mini lagoas como a que desenhei na esquerda. Ainda não tínhamos visto nada e já estava a ser incrível. 2 km depois chegávamos à Casa do Rabaçal que oferecia um pequeno refúgio e água a preços exorbitantes para os mais desesperados. Ao caminharmos mais um pouco, comentei que a Madeira era muito bonita mas que ainda não me tinha deixado verdadeiramente boquiaberto até que me deparo com a Cascata do Risco... e imediatamente retirei o que tinha dito! Depois de contemplar esta maravilha com todo o tempo do mundo, rumei ao ex-libris da levada, a queda das 25 fontes que é igualmente de cortar a respiração, mas desta feita sem bloco na mão porque o caminho tornara-se bem mais exigente. 

11km depois, com pernas a latejar por todo o lado, fomos até Porto Moniz para relaxar na praia mas ahh... Não havia praia, apenas piscinas naturais no meio das rochas. Confesso que aqui fiquei meio desapontado, esperava um pouco mais de abertura na paisagem para que eu conseguisse ver mais água e menos rochas. O excesso recorte do rochedo permitia muitos locais de esconderijo, usado por putos estúpidos nativos que tinham tirado o dia para a parvoíce e eu já não tenho paciência para tal e como tal, fiquei a guardar os meus pertences que eu sentia que se os largasse, eles voavam...

No dia seguinte fomos novamente até ao monte da cidade do Funchal para visitar um dos jardins, em que o eleito foi o Jardim Tropical do Berardo. Ficamos impressionados logo ao inicio com a beleza do local mas rapidamente apercebemo-nos que aquilo é tudo falso e nada foi colocado ao acaso. As partes mais interessantes são sem dúvida as que nos remetem para os tempos do Japão feudal onde ainda conseguimos sentir alguma sensação de paz... até que o próximo grupo de turistas entra para mais uma série de fotos que no fim, ninguém vê...

No final da manhã, fomos até Câmara de Lobos onde fiquei menos tempo que eu gostaria. O lugar é muito intimista e tem uma relação fantástica com o mar e com as suas gentes. Sentado na esplanada do Nº2 enquanto comia um prego em bolo do caco, desfrutei um pouco do quotidiano das pessoas que envolve como seria de esperar, a pesca.

No final da tarde fomos até à Ribeira Brava já em modo ultra cansados, com os pés todos doridos mas ainda assim lá fomos para a praia de calhaus, para um banho tardio. Curiosamente os calhaus estavam apenas na zona onde nós costumamos ter areia porque ali, a areia propriamente dita estava onde começava a água, o que tornou o banho bem agradável. A vila é um local bem simpático onde tudo revolve em torno desta Igreja Matriz, perfeitamente encaixada num cenário bem bucólico, com bananeiras a criar um pano de fundo bem verde, amarelado pelo Sol que já estava baixo.

No último dia eu já aparentava um cansaço que já se estendia para além do físico. Eu já estou numa fase em que quero coisas novas, mas por pouco tempo e neste último dia de viagem, as saudades de casa, da filha, do meu mundo, já apertavam e comecei então uma das minhas neuras que ninguém merece aturar, muito menos a minha mulher. Nestas neuras eu costumo por em causa tudo o que me rodeia, o meu lugar no mundo, o que faço, o que fiz e o que posso não vir a fazer...

Nem vontade de desenhar tinha, tudo era forçado... Acho que no fundo só queria sair dali e rumar a casa e ficar por lá, onde tudo me é familiar e confortável. O meu chip muda bruscamente entre ir à descoberta e ficar pela minha querida zona de conforto...
...o que acabou por acontecer neste tão esperado regresso a casa. Por muito belo e cativante que seja o local que visito, nada bate a sensação que tenho quando as rodas do avião tocam no solo do aeroporto de Lisboa. É sinal de que estou de volta e a apenas 40km de casa. O desenho mais gostei de fazer foi este, não pelo resultado final mas pelo sentimento que ele carregava na altura...

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